Amigos

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

CÂNTICO de Vinicius de Moraes

Não, tu  não  és  um  sonho, és a  existência
Tens  carne, tens fadiga e tens  pudor
no calmo  peito teu. Tu  és a estrela
sem  nome, és  a morada,  és a cantiga
Do amor, és  luz, és lírio,  namorada!
Tu  és todo  o  esplendor,  o  último claustro
Da  elegia  sem fim, anjo!  mendiga
Do  triste  verso meu.Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia,  o sentimento
Em  mim, fosses  a  aurora, o céu  da  aurora
Ausente,  amiga,  eu não te  perderia!
Amada!onde  te deixas,  onde  vagas
Entre as  vagas  flores?  e por  que  dormes
Entre  os vagos  rumores do mar? Tu
Primeira, última,  trágica, esquecida
De mim! És linda, és  alta! és  sorridente
És  como  o  verde  do  trigal  maduro
Teus olhos  têm  a cor  do  firmamento
Céu  castanho  da  tarde -  são  teus  olhos !
Teu  passo  arrasta  a doce  poesia
Do  amor!  prende o  poema  em forma  e cor
No espaço;  para o  astro  do  poente
És  o levante;  és  o  Sol!eu sou  o  gira
O  gira,  o girassol .  És a  soberba
Também,  a jovem  rosa  purpurina
És  rápida também,  como  a  andorinha!
Doçura! lisa  e  murmurante... a água
Que  corre  no  chão  morno  da  montanha
És tu;  tens  muitas  emoções;o pássaro
Do trópico inventou teu  meigo  nome
Duas  vezes,  de  súbito encantado!
Dona do  meu  amor!  sede constante
Do  meu  corpo  de  homem! melodia
Da minha  poesia  extraordinária!
Por  que  me arrastas?  por  que  me  fascinas?
Por que me  ensinas  a morrer? teu  sonho
Me leva  o  verso  à  sombra e  à  claridade.
Sou teu irmão, és  minha  irmã;  padeço
De ti,  sou  teu  cantor  humilde  e  terno
Teus  silêncio, teu trêmulo  sossego
Triste, onde  se arrastam  nostalgias
Melancólicas, ah,  tão melancólicas...
Amiga,  entra  de súbito,  pergunta
Por  mim, se  eu continuo  a  amar-te; ri
Esse  riso  que é tosse  de  ternura
Carrega-me  em  teu  seio, louca! sinto
A infância  em  teu amor! cresçamos juntos
Como  se fora  agora, e  sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos  a mágica  do sonho
Lânguida! ah,  que o destino  nada  pode
Contra esse teu  langor;  és o penúltimo
Lirismo!  encosta a tua face  fresca
Sobre o   meu peito nu, ouves?  é  cedo
Quanto mais tarde for,  mais cedo! a calma
É  o último  suspiro  da poesia
O mar é nosso,  a rosa  tem  seu nome
E recende mais  pura ao seu chamado.
Julieta!  Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me  brincar,  que te amo tanto
Que  se não  brinco , choro,  e desse  pranto
Desse pranto  sem  dor  que é o único  amigo
Das horas más em  que não  estás  comigo.


Vinicius  de  Moraes


Uma poesia de amor  e   uma canção  também de amor....um homem   e uma   mulher...
e na visão do pintor o mesmo sentimento.



Marc  Chagall


Vamos  falar, cantar  e sentir o amor!

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O porto e a ponte

O porto e a ponte 

O porto é o lugar onde lançamos sonhos
que desde sempre existem.
Para além do oceano, 
para o lado de lá que não vemos, e que sabemos
que para lá do mar
existe o início e o fim, 
que afinal é a mesma coisa ...
No final do quadrante
na foz da raiz 
onde existe o mistério e descobre-se a luz. 
Lugar de chegada, 
lugar de partida, 
e que nas calmarias traz belezas do céu, 
e que nas tempestades traz o medo inclemente 
em que tudo o que temos é semente do ser.
Para além do horizonte encontra-se o ouro, 
fazeres estranhos, saberes sutis ...
e atrás desse sonho içamos as velas, 
entregamos ao vento, 
o destino dos rumos 
e cantando ao futuro aventuras fantásticas 
de monstros medonhos 
que ousavam cortar a coragem dos fortes.
Sim, o porto de partida para uns, 
ponto de chegada para outros tantos, 
o quanto que se ganha, 
o que se perde e que se barganha. 
Sonhos, pesadelos ou realidade, 
assombram o homem em sua história. 
No porto encontramos riquezas absolutas, 
mistérios inauditos, insólitos saberes que se multiplicam
que se avalizam e se transformam
em sempre mais e nunca menos. 
E cada qual com seu sonho bem disposto, 
aprende e se transforma um pouco mais. 
São saberes navegantes
são rios caudalosos
são pontes que se lançam em busca de outros bens.
São sonhares 
são saberes 
são destinos, que na vida se resolvem e
 se transforam na espiral que nunca cessa de crescer. 

Guaraciaba Perides 
(set. de 2018) 





Isabel Perides 

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

MEU AMIGO DUQUE


Tinha um certo ar de nobreza, é certo.
Valentia,  honrosa presença e voz tonitroante.
o seu brado assustava e todos fugiam
quando  ele se  mostrava em furor...
Meu  amigo Duque não  precisava de lanças,
nem de elmos  ou armaduras...
e derretia-se todo  nas mãos  de sua Dama.
Gostava de sus apelos e, embora, fosse  severo,
pode-se  dizer  que  um afago,
quase  lhe  fazia  sorrir.
As  aias  lhe davam  banho,
secavam  sua loura  cabeleira.
e ele , a contento, retribuía  seus carinhos.
Meu  amigo  Duque  era um  sujeito  esperto...
comia bem o maroto.
Mas, o que  ele mais gostava   era refestelar-se
à  sombra...depois de um  lauto  banquete.
Era o senhor do  seu  Castelo e não havia estranhos
que lhe pisassem a sombra.
Quando  a  Dama  estava  em prantos,
lá vinha o Duque...discreto, colocava-se
ao seu lado,
fitava-a com olhos doces até que sua senhora
saindo de seus pesares  e
em sua ternura infinda saía com  ele aos campos
que lá de cima  do outeiro,
faziam  vivas  ao mar...
Saudades do  meu nobre guerreiro!
Que , por acaso,  era um cão...

Guaraciaba Perides









terça-feira, 21 de agosto de 2018

ÁGUAS PROFUNDAS

No lago  profundo  dos  grandes  segredos
Nas  horas  mais  íntimas dos  amores   perfeitos
Há  sempre um  milagre
Há   sempre  um  apelo

Da  vida  que segue  fluindo  suave
visando  a  corrente que   corre ao  mar...
E tudo se perde?
Se perde  ...?  Jamais!

Transformam-se em conchas preciosas de nácar,
Em estrelas do mar que namoram o céu,
Anêmonas e algas flutuam em cores ,
escondem-se pérolas ,tesouros de brilhos.

Cardumes estranhos  em  formas  de  sonhos
Translúcidas imagens...
Metáforas concretas dos  pensamentos
de Deus.

Matérias primais  da construção do mundo
Que  Ele  sonha    e  cria
transferindo à  forma, o conteúdo.

Mas , que   tudo  passa... passa  sim,  mas  permanece
 e  se  transforma  na  memória   que  explicita o sonho
em realidade   do  ser  em  expansão.

No   lago  profundo  dos  grandes  segredos
procede  a  alquimia.
Há  sempre  um  milagre,  há  sempre um  apelo
aos  Amores    Perfeitos
em    Metáforas  de  Deus.

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Assim  como é  dentro   é fora....
Assim como é embaixo é  em cima...
Mudam-se   as  formas
Mas  o que  importa é sempre  o Conteúdo
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Guaraciaba  Perides








domingo, 12 de agosto de 2018

EM ALGUM MOMENTO...


Em algum momento,
em algum lugar,
vamos sonhar de novo...
Vai ser  um  sonho lindo
Como a primeira nota
de uma nova trilha e
se fará canção...
De emoção tamanha,
se abrirão mais sonhos,
tais como  flores de libertação.
Os povos cantarão seus  hinos
Crianças cantarão  em rodas
Apaixonados  vão  fazer duetos
E o mundo  vai  fazer  de  conta...
A  vida  não  será mais  sonho
Será  enfim  o fim...ou recomeço?
Em algum  momento
em algum lugar,
as  mãos  vão  ser  de  acenos,
os  pés  alcançarão  espaços
como os leves  passos  das  mais  leves  brisas...
Os  olhos  falarão  de  amor
Os  lábios  se unirão  em  beijos
Os risos  serão os  das crianças
As luzes serão  os  dos cristais...
E todo mundo  e toda  a  gente
e todo  encanto de  um  novo Canto
cobrirá  a  Terra...
DORES  NO  MUNDO  NUNCA  MAIS!
Em algum  momento...em  algum  lugar
Vamos   sonhar  de  novo.


Guaraciaba   Perides




Um   domingo  de paz  e  amor...celebrando o Dia  dos  Pais...

terça-feira, 31 de julho de 2018

A VIDA NOS DETALHES

A  Vida  é  nos  detalhes  que se mostra
A Vida  é no agora que se importa
Vivemos como a hora do relógio
esquecidos de viver no tempo infindo.
A cada dia  apenas a rotina
A cada dia, apenas  as horas  passam
Os dias  multiplicam  seus favores
e em anos desdobram-se as paisagens
É como se tudo fosse um repetir  constante
Como  se tudo fosse  nada e
como se fosse  o nada, tudo...
como  uma novela que termina
e outra começa.
Mas quando na noite , a  mente  insone
faz o balanço  desse  mesmo tempo,
percebemos o quanto  que  não vimos
e se passaram frente aos  nossos  olhos.
Nossas  crianças  cresceram e
agora adultos,
já  não  dependem  mais dos nossos  braços
Agora nos   ensinam  as novas  regras,
daquilo  que  aprendemos  e  ensinamos...
Marcou-se em nossos  olhos  e  cabelos,
o  Universo  das coisas fugidias
E  entre  o  querer  e  o  poder,
distâncias  se alongaram,
como  se o carrossel veloz das horas  mortas
se  amontoassem  como  sombras  do  passado...
E a vida  em  movimento é rápida
e lenta, ao  mesmo  tempo.
E num átimo que  foi  mal  percebido,
a realidade  já  é  outra
e outro o seu  sentido.
As crianças,  a todo   tempo, se  renovam...
os  sonhos,  entretanto,  são  os  mesmos;
ideias   que  aqueceram  nossas  mentes,
ainda  valem,  são promessas  do futuro
e  são  certezas  de  mudar  o  Mundo...
Tudo é tão veloz e  ao  mesmo  tempo  lento
e a   história  se repete ao  nosso ouvido.
E  só  lembramos  de que  tudo  passa,
quando damos  conta,
de  que  nada  muda...
E  a vida  só  se revela  nos  detalhes.

Guaraciaba  Perides

Viva  La   Vida!

domingo, 22 de julho de 2018

MEDITAÇÃO EM EXERCÍCIO

Dos quatro cantos da Ilha
vê-se ao  longe o mar aberto
As ramagens dos coqueiros
dançam  ao  fluir do vento.
Deito-me  à sombra na praia
e começo a divagar...
Qual vem a ser  meu personagem?
Sou pirata, sou marujo,
sou náufrago ou sou poeta,
que pensa ser o que não é?
Ou, que já foi, quem sabe,
ao sabor de outras marés...
Um viajante do tempo,
ancorado por destino,
num canto qualquer da Ilha
e que por vias de magia...passa
pelo encantamento
de recriar de algum ponto
do infinito ao finito,
uma nova realidade...
Recriando do vir -a-ser
faço um barco. prendo as velas,
puxo a âncora, que se solta devagar.
Assim, desprendo as amarras
e ao vento que sopra forte,
ponho-me ao longe  das ondas
e de seu eterno marulhar.
Sou dono de meu viver
e através do pensamento,
sou marujo, sou pirata,
sou alguém do vir-a-ser
daquilo que eu quiser...
Basta centrar no peito
o coração que bate forte,
o sangue que corre nas veias,
o inspirar e expirar o ar que
tudo permeia
e de pronto abre-se  a mente
para a luz do tudo possível...
Abro as asas, estufo o peito,
sou forte no dom da vida.
posso voar e ainda ser
aquele que sempre fui.
Sinto-me desprender
do peso que carrego.
Sou quase alma , por fim...
Eis que algo me incomoda,
um som que  insistente ouço,
trazendo-me de volta  ao   centro
da realidade possível,
que por ora,  agora vivo.
A consciência que depura
o sonho ,  daquilo que é.
Afinal, defino o som e
ouço o cantar feliz,  lá fora,
de um saudável  Sabiá!

Guaraciaba Perides


Tudo faz parte do Todo