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sábado, 30 de outubro de 2010

Além dos véus

O que se vê além
Das janelas e cortinas
O que se vê além
das falas e dos olhos
O que se expõe
atrás das palavras
além do sentimento
que se oculta
como vivendo atrás
de nuvens e de véus
Nada se esconde
atrás, quer de biombos
ou de muros,
tudo transparece no fugaz,
seja um sorriso, uma lágrima,
um balançar de ombros,
um aceno distante
ou um raio do olhar.
O outro compreende e intui.
pois além das cortinas e dos véus
estamos todos nus.

Guaraciaba Perides (2010)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Nem que seja...


Quantos sonhos a realizar
Quantas emoções dentro do peito
Quantos beijos ainda a dar
A vida tem que dar um jeito...
O sol brilha lá fora
E o verde permanece,
a chuva que não veio
E a rosa que fenece...
No entanto, sopra a brisa
Que tão leve eterniza
O dom de existir
no aqui e agora.
Mesmo que seja
pra viver dentro de um sonho
Abre as janela da alma
e vive,
nem que seja,por um instante,
dance,
Nem que seja por um minuto,
escute,
nem que seja, por agora,
cante,
nem que seja, em segredo,
ame.
Assim seja..

Guaraciaba Perides (2010)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Lua Branca (Chiquinha Gonzaga) O tema da lua no Cancioneiro Popular Brasileiro


Ó lua branca de fulgores e encantos
Se é verdade que no amor tu dás abrigo
Vem tirar dos olhos meus o pranto
Ai, vem matar essa paixão que anda comigo.
Ai, por quem és, desce do céu, ó lua branca
Essa amargura do meu peito, ó vem arranca
Dá-me o luar de tua compaixão
Ó vem, por Deus, iluminar meu coração
E quantas vêzes lá no céu me aparecias
A brilhar em noite calma e constelada
E em tua luz então me surpreendias
Ajoelhado junto aos pés da minha amada
E ela a chorar, a soluçar, cheia de pejo
Vinha em seus lábios me ofertar um doce beijo
Ela partiu, ma abandonou assim
Ó lua branca, por quem és, tem dó de mim.


Chiquinha Gonzaga (primeira mulher maestrina do Brasil- 1847 - 1935)
composição de 1912

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Os sonhos perdidos (letra para uma canção)


Afinal, para onde foram?
Saíram para o céu como aves
e perderam a rota de seu destino?
afinal, para onde foram?
Partiram de um cais com as velas abertas
e perderam o rumo?
Afinal, para onde foram?
Cruzaram fronteiras como bandoleiros?
Afinal, para onde foram?
São flores de tempos que não os da primavera?
Afinal, para onde foram?
Afinal saíram,afinal partiram, afinal cruzaram,
afinal são flores e afinal esperam
no fundo da alma...

Guaraciaba Perides (2002)

sábado, 23 de outubro de 2010

Na dobra do Tempo

Alguém numa tarde ensolarada
abriu um livro e na borda de uma
de suas páginas escreveu: "hoje
é um dia de sol, três horas da tarde
de mil oitocentos e oitenta e nove."
Marcou a folha com um amor perfeito,
fechou o livro e adormeceu...
O livro guardou a data e a flor em segredo.
Um século se passou.
Alguém numa tarde ensolarada
pegou um livro da estante da casa
de seu bisavô, foi até a varanda,
abriu o livro ao acaso e leu:
"hoje é um dia de sol,três horas da tarde
de mil novecentos e oitenta e nove"
Olhou a flor, olhou o relógio.
eram três horas e cinco minutos...

Guaraciaba Perides (2007)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Pensão Familiar (Manuel Bandeira)

Jardim da pensãozinha burguesa.
Gatos espaçados ao sol.
A tiririca sitia os canteiros chatos.
O sol acaba de crestar as cravinas que murcharam.
Os girassóis
amarelo!
resistem.
E as dálias, rechonchudas, plebéias, dominicais.

Um gatinho faz pipi.
Com gestos de garçon de Restaurant-Palace
Encobre cuidadosamente a mijadinha.
Sai vibrando com elegância a patinha direita:
-É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.

Manuel Bandeira - Petrópolis, 1925 (in Antologia Poética)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Do lado direito

"Há uma roseira que dá flor na primavera"
E são todas rosas de quimeras...
Há sons que se misturam
em arco-íris no céu,
sonhos estrangeiros de matéria avulsa
intuindo sombras, fabricando mel...
Fantasmas percorrendo labirintos
sonhando os vivos em frases desconexas
e ondas de marés gigantes
fazem brilhar peixes de luz.
Pelo mar adentro sereias fabricam pérolas ao luar,
castelos de areia não se desmancham ao vento
e o olho do menino ama o por do sol!
Espelhos repartidos convergem no horizonte
criando o céu e o mar onde o real se esconde,
no branco azul do polo norte
na marcha dos pingüins do polo sul...
Há sempre um sonho na magia da cartola
Há sempre um amor escondido na lapela
Uma moeda de prata no chapéu do conde
Um sino de ouro no alto da capela
No lado direito onde a esperança cria
vagalumes de luz na escuridão!

Guaraciaba Perides (2004)

domingo, 17 de outubro de 2010

Giramundo


A Terra gira tão depressa
Que as vêzes eu fico tonta
mal o sol que nasce
vira o dia e vira a noite
e a lua aparece...
Correm as horas
dizem os velhos
e de susto em susto
já me ponho,
por que a Terra
gira tão depressa
deste jeito?...
Se eu correr junto com ela,
pode ser que surta efeito,
o tempo para
e a vida já não tem tamanho?
Mas, só que aqui,penso
que surja outro problema
e na loucura
de viver assim correndo
Não possa mais sentir
meu coração batendo...
Porque o compasso de uma vida
é o seu empenho,
de viver a cada hora e a cada dia.
Viver no tempo de existir
cada momento,
mesmo que seja, por tempo
assim marcado,
O tamanho da vida
é o seu prazer...
Nem que por isso,
as vêzes eu fique tonta,
deixe a Terra girar,
deixe o dia partir,
deixe a noite chegar...

Guaraciaba Perides (2010)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

No entanto...

Tudo é fácil
No entanto, tão difícil
Tudo é obvio
No entanto, obscuro
O desejo do Amor é uma verdade
No entanto, tudo falha...
Contudo,
A vida segue seu rumo
por ínvios caminhos
traçando em retas ou curvas
seus atalhos de pedras
e do verdadeiro amor já nem se fala...
Todavia,
O sol brilha no céu todos os dias
a Terra em torno dele e do seu eixo,
faz a dança do tempo, o calor e o frio
e o vento vindo de qualquer lugar,
desconhece o amor e
simplesmente passa...
Mas,
na voz do vento, na evolução do sol,
na vida que segue, difícil ou fácil,
na dança do tempo, nas horas que´passam,
o desejo do Amor
na alma prevalece.

Guaraciaba Perides (2010)

domingo, 10 de outubro de 2010

A rosa que me basta


Olho que me espreita
Riso que me afasta
Rosto que me encanta
Canto que me prende
Um beijo na face...
Verso que fascina
alerta o meu sentido
Choro que me espanta
Rosa que me basta...
Apenas a canção que o vento traz
Vem iluminar o olho que brilha
e o riso que enfeita
o beijo na boca
o choro que se afasta
e a rosa que me basta.

Guaraciaba Perides(2009)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Menina (letra para canção)

Faz tanto tempo até
que já não lembro mais...
Teus olhos de azul desmaiado,
sorriso tão branco,
das sardas molhadas
ao sol da piscina...
Faz tanto tempo até
que já não lembro mais...
Teu sorriso a meia distância
um quê de menina e mulher.
E eu garoto vadio
cabeça no mundo da lua,
um tanto sem jeito, um tanto arredio,
sonhava com as tranças
da linda menina
brincando de amar...
Faz tanto tempo até
que já não lembro mais...
Teus olhos de azul desmaiado,
sorriso tão branco,
das sardas molhadas
ao sol do verão...
faz tanto tempo até
que já não lembro mais...

Guaraciaba Perides (2006)

Madrugada insone em metáforas

Um cachorro late

mordendo o escuro da noite

Um carro acelerado

passa mordendo o tempo

O relógio marca e remarca

em badaladas frias

A vida flui no pensamento...

Muitos dormem

o sono dos justos

Outros sonham acordados

Há muita busca pelas ruas

Muitas angústias pelas horas mortas

Aqui e ali, as luzes semoventes

quebram a solidão

dos insones em vigília.

versos de amor são fósforos

acesos no frio do peito.

Muitas canções de amor

compostas em segredo

de heróis que se fazem

no silêncio da noite,

construindo exilios e

paixões em degredo...

A mansidão das horas

escoando lentas,

vem com mãos de seda

trazer a paz e a calma.

E no sil~encio da alma, mais profundo,

vem a vida viver outro momento


Guaraciaba Perides (2007)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Congresso Internacional do Medo (Carlos Drummond)

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo dos grandes sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Fios do Dias(letra para canção)

Quero dizer tantas coisas
Alinhavar pensamentos
Criar paisagens de idéias
Fazer de um sonho canção.
Quero achar o perdido
daquilo que não conheço
mas que contudo percebo
que em algum lugar eu deixei.
Procuro dentro da alma
a traduzir em palavras
algo, porém que me escapa...
Fiam-se os fios dos dias
Na roca do tempo tecem
a malha de fina estampa
da vida que me entretem...
E assim, vivendo este sonho
de vida, talvez, não sei,
penso, mas não consigo
lembrar-me do que sonhei...

Guaraciaba Perides (2002)