Amigos

domingo, 11 de novembro de 2018

TECITURA

TECITURA
São fios de algodão,
fios de lã...
algum ouro, alguma  prata
na trama delicada que  se tece...
ao longo do caminho.
Entremeando  flores
e sugerindo  espaços...
de nós  em nós que alteando planos
vão as mãos  do  Tempo  trabalhando.
Artesãs da Vida
vão  compondo  histórias,
repetindo  ciclos,
alternados ciclos,
ciclos alternados...

Fios  de ouro
na trama que se borda
~~~~fios  de ouro,
cruzam-se  e se  afastam
Perdem-se e se reencontram
traçando paisagens, de formas
e de flores
que à luz  de algures
cintilam no  espaço.
Circulam e se ligam e
de novo se encontram
cumprindo passagens.
Atando os  nós, em retas  e viés...
No fundo  se perdem
em tons que se esfumam
deixando a lembrança
de um vago  momento...

Guaraciaba  Perides



imagem de  internet...tapete persa







domingo, 4 de novembro de 2018

O OLHAR DO ENCANTAMENTO

I   Do ensaio produzido  por Renato  Janine  Ribeiro  " OS  AMANTES   CONTRA  O PODER"
extraí para guardar um   texto  que fala sobre olhares de amor que se cruzam.


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" E  com  isso voltamos  aos  olhares do amor  que  se cruzam.O  que há  nesse  encontro
dos olhos, no coup  de  foudre  mútuo?  Há que,  neles,  cada um vê  o ver.
Olhar ,  no  amor,  tem dois  poderes. O olhar captura, extrai;  é voyer,  arranca  prazer do
objeto que  ele devassa;  e  por isso  os índios não gostam  de  ser  fotografados,  temendo
perder  a  alma. É  o que acontece  quando  alguém  nos  impressiona,  desde  a foto  do nu,
até a pessoa  por  quem  nos  apaixonamos. Na  primeira  vista, o  apaixonado  sofre  uma
'perturbação  terrível',   nunca  sentida.  Não  sabe falar,  age  mal. Só diz  bobagens, ou nada.
Mas extrai.
O  segundo  poder do olhar  é  que ele  revela, entrega,  dá.  Pelos  olhos  o  sentimento circula,
ao  bom  entendedor,  que  nem  sempre é  o destinatário. Há  congestionamento  nessa  troca
de  sinais: vezes  em  que não sei   qual  a  reação  da  amada   -  porque  um  olho  que  se deslumbra ( cega-se)  e  além  disso declara  o  seu  amor,  como  poderá  ainda  decifrar  o
outro?  Mas há , nisso,  grande  beleza. É  a de ver ver.  Olhar o olhar  da amada é das coisas
mais  belas  que  existem. É  a rara  reciprocidade  do amor, e não é  por  acaso que nela,  nos
momentos raríssimos  em que  conseguimos escapar  a  nossos  medos  e viver  um  encontro
sem  tirania, o coup  de  foudre  a dois  nos dá  uma  lição  de  entrega  e não poder"

retirado  do livro  O  OLHAR     editado  pela Companhia  das Letras -1988
coletânea  de textos produzidos para o Ciclo de  Conferências  coordenado  pela  equipe
do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Fundação  Nacional  de  Arte.














Eu conheci você ou foi só  seu  reflexo?
Seu  sorriso existiu  ou  foi  só  uma   imagem
de alguém, que quis  pela vida  afora,
brincar  de esconder  em um  mundo  de espelhos?
e num jogo  de cena,  sem  hora  e sem  nexo
criar  em um   sonho  cifrada  mensagem...

Guaraciaba   Perides.

domingo, 21 de outubro de 2018

POESIAS... declamadas ou cantadas

O   CONVIDADO

É   verão no fim da tarde,  ao  canto  das  cigarras
O  chão  é  um  vulcão  adormecido
delira um  vaga-lume: há  luz  em  Marte
E  o jantar  ainda não foi  servido.

Condensam gotas  de água sobre o  copo
o  pó  afaga  o  brilho da mobília
e pousa  no  retrato  de  família
e pousa  no  retrato  de  família

Protestam  as fissuras  do sobrado
no rodapé  descalço  das  andanças...
Chegou  o  convidado!
Chegou  o  convidado!

Servida foi  outra  taça  de vinho
à  mesa só  ficou  uma  migalha
no  linho  da  toalha
no linho  da  toalha

Resvala já  o sol  no horizonte
vencida sai  a noite  pela janela,
duelo à  luz  de vela
duelo à luz  de  vela

Já dormem  as faianças  na cozinha
apaga-se  a  mortalha  no cinzeiro
que  bem  que sabe  o licor  da  madrinha
que bem que sabe o licor da madrinha

O eco mede  o  espaço  entre as  lembranças
e  o tempo  salta  à  corda  do relógio
do  quarto  das  crianças
no  quarto  das  crianças.

João   Afonso/ José  Moz Caparra  (poesia  portuguesa)
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LOS   FANTASMAS  DE  LISBOA

Dónde estará el  pasado  que tuvimos
El pasado  que  tuve  entre  tus  brazos
En  la calle resuenan  nuestros  pasos
pero no  estamos: nos desvanecimos

Dónde estarán los  besos que nos dimos
la tristeza  tan  dulce  de  los  fados
tu promesas tus llantos  mis  enfados
nuestros  cuerpos que un dia  compartimos

Assustados los nuevos  ocupantes
de nuestro   cuarto en  el hotal  escucham
la risa de  personas que se duchan

Como los personajes de Pessoa
somos  almas  sin cuerpo:  dos  amantes
que penan  en las noches  de Lisboa

ÓSCAR  HANN  (poesia  chilena)

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Nota:  A  poesia  de João  Afonso  encontra-se no CD  Zanzíbar    em forma de canção
ficando ainda mais bonita



Los fantasmas  de Lisboa também foi  musicada...uma belíssima  canção mas
não encontrei disponível no youtube; encontrei  declamada...



Ambas me encantam  ...

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

TEXTOS ESPARSOS

"  A  esperança é  uma
    alegria  instável
nascida  da ideia de uma coisa futura  ou passada
de  cujo desenlace duvidamos em certa  medida"
" O  medo é  uma tristeza  instável nascida da
ideia de uma  coisa  futura  ou passada de cujo
desenlace duvidamos  em  certa  medida"
" Segue-se dessas definições que não há
esperança  sem  medo, nem   medo  sem esperança"

ESPINOSA  -ETHICA-  livro III

"Se   numa  Cidade os cidadãos   não tomam armas porque
estão  aterrados pelo  medo, não se pode dizer que ali
exista  a paz  e sim mera ausência   de guerra.
A paz não é pura  ausência  de guerra, mas  virtude
originária da força d'alma no  respeito  às leis[...]
Uma  cidade onde  a paz é efeito da inercia  dos
súditos tangidos  como  rebanhos  e  feitos apenas
para servir  merece  antes  o nome  de solidão do  que
de Cidade."
ESPINOSA--( TRATADO  POLÍTICO)


" O  amor é assim fundamentalmente não  busca do semelhante,
mas busca da totalidade  partida, da  unidade  quebrada.
Por  isso  o amor parte desse sabor  que o  ser humano experimenta
de  falta,  de  mutilação, de  incompletude. O  desejo  de unir-se ao
amado provém  dessa   sensação de  ser apenas parte, metade do todo"

JOSÉ AMÉRICO MOTTA  PESSANHA;( retirado   do Discurso  de Aristófanes
em Banquete  de Platão)  no ensaio "as  várias  faces  do amor"



" O mais  perfeito  ato  do Homem  é  a Paz.
E por ser tão completo, tão  pleno em si mesmo,
é o mais  difícil"
GANDHI


" A  gente pode  criar  um  mundo  assim,
o império total de  mercadorias, coisas, sensações,
as coisas  mais incríveis,  os  momentos  mais  emocionantes.
Uma coisa porém  não pode  ser transformada  em  mercadoria,
que é o   Amor. Amor é  dado  de graça, alguém pode  comprar
o  Amor?
Pode-se  comprar sexo de outra pessoa, mas o Amor  a  gente  sabe
que é o último  reduto que  resiste à  transformação  em  mercadoria"
PAULO  LEMINSKI





extraído 
Painel de Cândido  Portinari    "Guerra  e  Paz"






sexta-feira, 28 de setembro de 2018

O MENINO QUE SE PERDEU NA FESTA (poema de Murilo Araujo)

Procurei-te, irmãzinha, em  toda  parte
pelo  palácio de  festim  do  mundo  por  onde andei

Mas nossas  mãos  não  se tocaram...
Como  estou  trêmulo
com o  pensamento  de  que  não te  encontrarei!

E à  meia-noite
quando o Tempo
vier   apagando sem  palavras  os  candelabros...
desorientado  que  farei?

vendo  a  lua lívida
manchar  no  muro as  sombras lúgubres  das  árvores,
nos pátios  longos,  ao noturno  das  estrelas,
só por entre os  soluços dos  repuxos sonâmbulos
aonde  irei?

Sem te  achar  serei  um  menino  transviado,
perdido  na extensão  de  uma sala  vazia,
que  olha  as  molduras de  ouro e os  tapetes  vermelhos
e  se  inquieta  e  se  assombra...

E  errarei  aterrado
vendo  chorar  comigo  errante  nos  espelhos,
apenas  minha  sombra

Murilo  Araujo  ( poeta modernista)   
In Antologia  dos  Poetas  Modernistas vol 1 -  organizada  por Manuel Bandeira





sexta-feira, 14 de setembro de 2018

CÂNTICO de Vinicius de Moraes

Não, tu  não  és  um  sonho, és a  existência
Tens  carne, tens fadiga e tens  pudor
no calmo  peito teu. Tu  és a estrela
sem  nome, és  a morada,  és a cantiga
Do amor, és  luz, és lírio,  namorada!
Tu  és todo  o  esplendor,  o  último claustro
Da  elegia  sem fim, anjo!  mendiga
Do  triste  verso meu.Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia,  o sentimento
Em  mim, fosses  a  aurora, o céu  da  aurora
Ausente,  amiga,  eu não te  perderia!
Amada!onde  te deixas,  onde  vagas
Entre as  vagas  flores?  e por  que  dormes
Entre  os vagos  rumores do mar? Tu
Primeira, última,  trágica, esquecida
De mim! És linda, és  alta! és  sorridente
És  como  o  verde  do  trigal  maduro
Teus olhos  têm  a cor  do  firmamento
Céu  castanho  da  tarde -  são  teus  olhos !
Teu  passo  arrasta  a doce  poesia
Do  amor!  prende o  poema  em forma  e cor
No espaço;  para o  astro  do  poente
És  o levante;  és  o  Sol!eu sou  o  gira
O  gira,  o girassol .  És a  soberba
Também,  a jovem  rosa  purpurina
És  rápida também,  como  a  andorinha!
Doçura! lisa  e  murmurante... a água
Que  corre  no  chão  morno  da  montanha
És tu;  tens  muitas  emoções;o pássaro
Do trópico inventou teu  meigo  nome
Duas  vezes,  de  súbito encantado!
Dona do  meu  amor!  sede constante
Do  meu  corpo  de  homem! melodia
Da minha  poesia  extraordinária!
Por  que  me arrastas?  por  que  me  fascinas?
Por que me  ensinas  a morrer? teu  sonho
Me leva  o  verso  à  sombra e  à  claridade.
Sou teu irmão, és  minha  irmã;  padeço
De ti,  sou  teu  cantor  humilde  e  terno
Teus  silêncio, teu trêmulo  sossego
Triste, onde  se arrastam  nostalgias
Melancólicas, ah,  tão melancólicas...
Amiga,  entra  de súbito,  pergunta
Por  mim, se  eu continuo  a  amar-te; ri
Esse  riso  que é tosse  de  ternura
Carrega-me  em  teu  seio, louca! sinto
A infância  em  teu amor! cresçamos juntos
Como  se fora  agora, e  sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos  a mágica  do sonho
Lânguida! ah,  que o destino  nada  pode
Contra esse teu  langor;  és o penúltimo
Lirismo!  encosta a tua face  fresca
Sobre o   meu peito nu, ouves?  é  cedo
Quanto mais tarde for,  mais cedo! a calma
É  o último  suspiro  da poesia
O mar é nosso,  a rosa  tem  seu nome
E recende mais  pura ao seu chamado.
Julieta!  Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me  brincar,  que te amo tanto
Que  se não  brinco , choro,  e desse  pranto
Desse pranto  sem  dor  que é o único  amigo
Das horas más em  que não  estás  comigo.


Vinicius  de  Moraes


Uma poesia de amor  e   uma canção  também de amor....um homem   e uma   mulher...
e na visão do pintor o mesmo sentimento.



Marc  Chagall


Vamos  falar, cantar  e sentir o amor!

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O porto e a ponte

O porto e a ponte 

O porto é o lugar onde lançamos sonhos
que desde sempre existem.
Para além do oceano, 
para o lado de lá que não vemos, e que sabemos
que para lá do mar
existe o início e o fim, 
que afinal é a mesma coisa ...
No final do quadrante
na foz da raiz 
onde existe o mistério e descobre-se a luz. 
Lugar de chegada, 
lugar de partida, 
e que nas calmarias traz belezas do céu, 
e que nas tempestades traz o medo inclemente 
em que tudo o que temos é semente do ser.
Para além do horizonte encontra-se o ouro, 
fazeres estranhos, saberes sutis ...
e atrás desse sonho içamos as velas, 
entregamos ao vento, 
o destino dos rumos 
e cantando ao futuro aventuras fantásticas 
de monstros medonhos 
que ousavam cortar a coragem dos fortes.
Sim, o porto de partida para uns, 
ponto de chegada para outros tantos, 
o quanto que se ganha, 
o que se perde e que se barganha. 
Sonhos, pesadelos ou realidade, 
assombram o homem em sua história. 
No porto encontramos riquezas absolutas, 
mistérios inauditos, insólitos saberes que se multiplicam
que se avalizam e se transformam
em sempre mais e nunca menos. 
E cada qual com seu sonho bem disposto, 
aprende e se transforma um pouco mais. 
São saberes navegantes
são rios caudalosos
são pontes que se lançam em busca de outros bens.
São sonhares 
são saberes 
são destinos, que na vida se resolvem e
 se transforam na espiral que nunca cessa de crescer. 

Guaraciaba Perides 
(set. de 2018) 





Isabel Perides