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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

NUM TEMPO... SEM TEMPO

I
A   BOLA  NA  PRAIA

Brincando  com a bola
correndo na praia
a bola escapou e
correndo pro mar
a onda levou...
- Cadê minha bola?
chorou o menino
alguém disse rindo
- HI!   a bola boiou...

A bola lá longe,
o sol lá em cima
brilhando e
a bola vagando
ao longe no mar...

Aí, vem outra onda,
vem lá do horizonte,
possante e mais forte
quebrando na praia
e a bola voltou...


II
ERAM  CINCO  PIRATAS

Eram cinco piratas:
João, Pedro, Ana, Rita
e João  Maria...
soltos na praia de
um tempo sem tempo
Eram felizes e não sabiam...
Soltando pipas ao vento,
roubando fruta madura
Eles, os meninos da praia,
da vida faziam brinquedo.
Na maré mansa, ao sol do dia,
num só momento, de fantasia,
era o bando pirata buscando
o tesouro
da vida escondida...
Num tempo do nunca mais
eram cinco piratas:
João, Pedro, Ana,  Rita
e João  Maria.


Guaraciaba Perides

Para completar,  homenageando crianças , santos e poetas no Centenário do nascimento de
Vinicius de Moraes selecionei esta música: São Francisco na voz de Ney Matogrosso.


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

V I V Ê N C I A S

I
O gato no muro
Espia a noite
Namora a lua...
Sente a vida fluir
sem pensamento.
No gato a vida é
o que tem que ser...
O vento arrepia os seus pelos
E de sua garganta
Um grito chama o  amor.
Perfeita e exata
a natureza se completa
no gato sobre o muro...


II
O canário da terra
canta a vida
A flor se abre
na manhã
A água da fonte escorre
num cantar alegre
A criança sorri
na bola de sabão...
O Universo se constrói
a cada instante
E o minuto seguinte
é outro tempo...

III
A lua no lago
Trêmula de frio
sob um céu que brilha
sonha que mais bela...
sem saber que ela
é a própria outra
que se mira no espelho
d'alma...
Lua que no lago, lua que no céu,
sonho ou verdade,
qual delas será?

IV
O velho chinês
pescava um sonho
nas águas do lago.
Na ponta vara,
um fio de vida
conduz uma estrela
e reflete o  céu...
A vida que passa
nas nuvens que dançam
ao vento do tempo
e faz tudo girar...
E o fio da vida
conduz uma estrela
para o sonho pescar...
Nas águas do lago,
entre o tudo e o nada
sonha o velho chinês


Guaraciaba Perides


Para completar as vivências entre  as pessoas e a cultura de Creta a linda voz de Ney
 Matogrosso cantando  "mi par d'udire ancora" da  ópera o Pescador de Pérolas de
Bizet.


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Linguagens...

Como uma espada cravada na rocha
Uma estátua construída de orvalho
Uma folha nascida
num pau sem raiz
e a hera correndo por caminhos ocultos.
Como peixe nadando em águas profundas
e um cão de qualquer tempo
uivando para a lua.
Como astros  nas altas esferas
Um canto de cisne
Rapsódia ao piano
Bailarinas  dançando
e aves pairando no ar das ravinas.
Estranhos mistérios percorrem a mente
constroem um tempo atrás de outro tempo
que às vezes afloram e outras escondem,
anseios da alma, amores perdidos,
Palavras vedadas, verdades veladas,
escritas em outras linguagens
que não a da fala
que antes oculta, mais do que revela
e permanece estranha
a quem não sabe
decifrar os signos da vida

Guaraciaba Perides (2008)




Para  decifrar os signos da vida escolhi este vídeo com imagens de vida como
linguagens de beleza  e maravilhosa música de Vangelis.


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

COMEÇA A FESTA...

Chega o menino
Começa a festa
da descoberta do mundo...
Aos olhos do menino,
na presença do menino,
desdobra-se
refletida num espelho
a nossa própria infância...
É o  menino que nos ensina
a olhar o novo
e a sua graça é o nosso riso
sua inocência, nossa lembrança...
O seu espanto que compartilha
o seu momento de descoberta
dos dons da vida...
É tudo novo, mesmo que antigo
E acorda em nós,
nosso menino
adormecido...

Guaraciaba Perides (2008)

Comemorando o dia da Criança, as que hoje descobrem o mundo e as crianças que
fomos um dia.

Para completar o texto o vídeo de  Marcel Marceau  ( o fabuloso  mímico francês MIMI)


sábado, 5 de outubro de 2013

ÁGUAS MARINHAS`

É madrugada...saio de casa
Em passos breves ponho-me a andar
Vou caminhando sem muita pressa
Na areia fina à beira mar...
Lá no horizonte brilha a aurora
Aragem fria nos meus cabelos
Voam as aves grasnando forte
Saudando o início de um novo dia.
Na caminhada ficam pegadas
dos pés descalços, fundos na areia,
O coração batendo forte
brinda a vida com alegria.
A luz do sol que se anuncia
ainda morno como criança
e lá do mar chega a brisa
com gosto e cheiro de maresia...
Na rapsódia em movimento
Eis que já chegam homens do mar,
puxando barcos de pescadores,
lançando redes com gestos breves,
modos precisos de maestria...
As ondas calmas do mar aberto
lançam segredos na branca areia...
Em ritmo de vida, os pés descalços
criam passos na paisagem
que se desmancham ao vento...

Guaraciaba Perides   (2007)


Para integrar ao texto o lindo vídeo  da música de Dorival Caymi  cantando em dupla
com Adriana Calcanhotto: "Quem vem pra beira do mar"




sábado, 28 de setembro de 2013

AMSTERDÃ (ideário)*


Percorrendo os campos azuis
que levam ao por do sol...
no claro escuro das telas de Rembrandt
quero sentir o ar de Amsterdã.
Girando em moinhos de vento,
sentir o passado, presente
nas asas do tempo...
Nas praças,  primaveras,
tulipas desfazendo-se em
paisagens de aquarelas.
Museus, esquinas e canais,
ruas escuras, luzes, diques,
barcos, flores, frio e sol...
Nas casas, gente e vidas,
girando saudades em moinhos
ao vento.
Lirismo, fantasia, faz de conta
que  de conta faz...
E por que não, se assim o quer
a alma que habita um coração
e que da infância traz
nos labirintos que percorrem
a emoção...saudade!
Quero visitar Amsterdã


Guaraciaba Perides (2008)

*Quando eu era criança minha mãe me lia histórias de outros países...
Era um livro muito bonito com muitas ilustrações de contos europeus.
Sobre a Holanda, eu fiquei particularmente encantada pois as ilustrações
eram muito bonitas, os moinhos de vento, as flores e o fato de serem terras
abaixo do nível do mar cujas águas eram seguras por diques, o que na verdade
era para mim um mistério a mais,.Depois, as roupas , a touca e os tamanquinhos
das moças holandesas, uma delícia no meu imaginário. Ficou em poesia a minha
saudade da infância.

Passeando por Amsterdã;

I

domingo, 22 de setembro de 2013

O. ELEFANTE (Carlos Drummond de Andrade) e música RODOPIO (Luís Tatit)


Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez  lhe  dê apoio.
E o encho de algodão
de paina, de doçura,
à cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas
dessa matéria pura
que não sei figurar
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluída e permanente,
alheia a toda fraude.

Eis o meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,

mas não querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raíz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado
Amanhã recomeço.


 
 
 
 
 
 
 
in ANTOLOGIA POÉTICA   de CARLOS DRUMMOND  DE ANDRADE
Música   RODOPIO  de Luís Tatit  cantando com Ná Ozzetti