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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

POLICROMIAS*

Pombas de renda a voar pelas cortinas
Rosas rosa-chá no vaso de porcelana
Lágrimas de cristal escorrem pelo lustre
e brilha o azul do céu nos olhos da menina...
Ao piano  o som de uma valsa antiga,
nuvens dourada são os seus cabelos,
suas mãos deslizam debulhando notas,
pérolas que se espalham pelo chão polido...
..............................................................................
Luzes de neón nas passarelas
Gelo seco em nuvens que esvoaçam
sedas, transparências futuristas,
torres penteadas de cabelos...
Esquálidas meninas desfilam olhos vagos,
bocas vermelhas e unhas que cintilam.
Sob um esfusiante som de bate-estacas,
paira no ar em gélidos semblantes,
sensação de angústia e fim de mundo...
..........................................................................

Meninos e meninas, homens e mulheres
Outros um tanto mais, ou tanto menos,
Tatuagens nos braços, pernas, peitos
Piercing nas orelhas, no nariz, umbigo
e em qualquer lugar que for de algum desejo...
Escova progressiva, cabelos coloridos,
Black Power, Skin  Head ou Moicanos,
ao som de um Hard Rock ,
de uma balada
ou Jazz,
Circulam como iguais, sem mais , nem menos.

Guaraciaba Perides (2011)

*Ainda assim, vejam que  ternura na modernidade:


s

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O Prato Azul -Pombinho de Cora Coralina


Há algum tempo postei no blog um poema de Cora Coralina onde ela conta a história
de um jogo de jantar de porcelana que foi encomendado de Macau para ser presente de
casamento de uma personalidade importante em Goiás. A saborosa poesia conta a difícil´
trajetória do presente, os caminhos percorridos ao mesmo tempo que vai relatando os
costumes coloniais de época e a delicadeza da decoração em pinturas das peças que com
punham o aparelho de jantar.A poesia  denomina-se "A estória do Aparelho Azul Pombinho"
Após muitas gerações, das 92 peças que compunham o jogo de jantar, só restou um prato
e Cora  Coralina conta  em poesia como foi a "Estoria do Prato Azul Pombinho"

Minha bisavó - que Deus a tenha em glória-
sempre contava e recontava
em sentidas recordações
de outros tempos
a estória de saudade
daquele prato azul-pombinho.

Era uma estória minuciosa.
Comprida, detalhada.
Sentimental.
Puxada em suspiros saudosistas
e ais presentes.
E terminava invariavelmente,
depois do caso esmiuçado:
" - Nem gosto de lembrar disso..."
É que a estória se prendia
aos tempos idos em que vivia
minha bisavó
que fizera deles seu presente e seu futuro.

Voltando ao prato azul- pombinho
que conheci quando menina
e que deixou em mim
lembranla imperecível.
Era um prato sozinho,
último remanescente, sobrevivente,
sobra mesmo, de uma coleção,
de um aparelho antigo
de 92 peças.
Isto contava com emoção, minha bisavó,
que Deus haja.

Era um prato original,
muito grande, fora de tamanho,
um tanto oval.
Prato de centro, de antigas mesas senhoriais
de família numerosa.
De faustos casamentos e dias de batizado.

Pesao.Com duas asas por onde segurar.
Prato de bom-bocado e de mães-bentas.
De fios de ovos.
De receita dobrada
de grandes pudins,
recendendo a cravo,
nadando em calda.

Era, na verdade, um enlevo.
Tinha seus desenhos
em miniaturas delicada:
Todo azul-forte,
em fundo claro
num meio - relevo.
Galhadas de árvores e flores
estilizadas.
Um templo enfeitado de lanternas.
Figuras rotundas de entremez.
Uma ilha.Um quiosque rendilhado.
Um braço de mar.
Um pagode e um palácio chinês.
Uma ponte.
Um barco com sua coberta de seda.
Pombos sobevoando.

Minha bisavó
traduzia com sentimento sem igual,
a lenda oriental
estampada no fundo daquele prato.
Eu era toda ouvidos.
Ouvia com os olhos, com o nariz, com a boca,
com todos os sentidos,
aquela estória da Princesinha Lui,
lá da China - muito longe de Goiás -
que tinha fugido do palácio, um dia,
com um plebeu do seu agrado
e se refugiado num quiosque muito lindo
com aquele a quem queria,
enquanto o velho mandarim - seu pai -
concertava, com outro mandarim de nobre casta,
detalhes complicados e cerimoniosos
de seu casamento com um príncipe todo-poderoso,
chamado Li.

Então, o velho mandarim,
que aparecia também no prato,
de rabicho e de quimono,
com gestos de espavento  e cercado de aparato,
decretou que os criados do palácio
incendiassem o quiosque
onde se encontravam os fugitivos namorados.

E lá estavam no fundo do prato,
- oh, encanto de minha meninice! -
pintadinhos de azul,
uns atrás dos outros - atravessando a ponte,
com seus chapeuzinhos de bateia
e suas japoninhas largas,
cinco miniaturas de chinês.
Cada qual com sua tocha acesa
- na pintura-
para por fogo no quiosque
- da pintura.
Mas ao largo do mar alto
balouçava um barco altivo
com sua coberta de prata,
levando longe o casal fugitivo.

Havia, como já disse,
pombos esvoaçando.
E um deles levava, numa argolinha do pé,
mensagem da boa ama,
dando aviso a sua princesa e dama,
da vingança do velho mandarim.

Os namorados então
na calada da noite,
passaram sorrateiros para o barco,
driblando o velho, como se diz hoje.
E era aquele barco que balouçava
no mar alto da velha China,
no fundo do prato.

Eu era curiosa para saber o final da estória.
Mas o resto, por muito que pedisse,
não contava  minha bisavó.
Dali pra frente a estória era omissa.
Dizia ela - que o resto não estava no prato
nem constava do relato.
Do resto, ela não sabia.
E dava o ponto final recomendado.
" -Cuidado com esse prato!
É o último de 92"

Devo dizer  - esclarecendo,
esses 92 não foram do meu tempo.
Explicava minha bisabó
que os outros - quebrados, sumidos,
talvez roubados -
traziam outros recados,outras legendas,
prebendas de um tal Confúcio
e baladas de um vate
chamado Hipeng.

Do meu tempo só foi mesmo
aquele último
que, em raros dias de cerimônia
ou festas do Divino
figurava na mesa em grande pompa,
carregado de doces secos, variados,
muito finos,
encimados por uma coroa
alvacenta e macia
de cocadas-de-fita.

às  vêzes, ia de empréstio
à cas da boa tia Nhorita.
E era certo no centro da mesa
de aniversário, com sua montanha
de empadas, bem tostadas.
No dia seguinte, voltava.
conduzido por um portador
que  era sempreo Abdênago, preto de valor,
de alta e mútua confiança.

Voltava com muito-obrigado
e,  melhor - cheinho
de doces e salgados.
Tornava a relíquia para o relicário
que no caso era um grande e velho armário,
alto e bem fechado.
-"Cuidado com o prato azul-pombinho"
dizia minha bisavó,
cada vez que o punha de lado.

Um dia, por azar,
sem se saber, sem se esperar,
artes do salta-caminho,
partes do capeta,
fora do seu lugar, apareceu quebrado,
feito em pedaços - sim senhor-
o prato azul-pombinho.

O pessoal da casa se assanhava.
Cada qual jurava por si.
Achava seus bons álibis.
Punia pelos  outros.
Se defendia com energia.
Minha bisavó teve  "aquela coisa"
(Ela sempre tinha "aquela coisa" em casos tais")
Sobreveio o flato.
Arrotando alto, por fim, até chorou...

Eu (emocionada), vendo o pranto de minha bisavó,
lembrando só
da princesinha Lui-
que já tinha passado a viver no meu inconsciente
como ser presente,
comecei a chorar
- que chorona sempre fui.

Foi o bastante para ser apontada e acusada
de ter quebrado o prato.
Chorei mais alto, na maior tristeza,
comprometendo qualquer tentativa de defesa.
De nada valeu minha fraca negativa.
Fez-se o levantamento de minha vida pregressa
de menina
e a revisão de uns tantos processos arquivados.
Tinha já quebrado - em tempos alternados,
três pratos, uma compoteira de estimação,
uma tigela, vários pires e a tampa de uma terrina

Meus antecedente, até,
não eram  muito bons.
Com relação a coisas quebradas
nada me abonava.
E o processo se fez, à revelia da ré,
e com esta agravante:
tinha colado no meu ser magricela, de menina,
vários vocativos
adesivos, pejorativos:inzoneira, buliçosa e malina.

Por indução e conclusiva,
era eu mesma  que tinha quebrado o prato azul-pombinho.

Reuniu-se o conselho de família
e  veio a condenação à moda do meu tempo:
uma boa tunda de chineladas.

Aí ponderou minha bisavó
umas  tantas atenuantes a meu favor.
E o castigo foi comutado
para outro, bem lembrado, que melhor servisse a todos
de escarmento e de lição:
trazer no pescoço por tempo indeterminado,
amarrado de um ordão,
um caco do prato quebrado.

O dito, melhor feito.
Logo se torceu no fuso
um cordão de novelão.
Encerdo foi.Amarrou-se a êle  um caco, de bom jeito,
em forma de meia-lua.
E a modo de colar, foi posto em seu lugar,
isto é, no meu pescoço.
Ainda mais
agravada a penalidade:
proibição de chegar na porta da rua..
Era assim, antigamente.

Dizia-se aquele, um castigo atinente,
de ótima procedência.Boa coerência.
Exemplar e de alta moral.

Chorei sozinha minhas mágoas de criança.
Depois, me acostumei com aquilo.
no fim, até brincava com o caco pendurado
E foi assim que guardei
no armarinho da memória, bem guardado,
e posso contar aos meus leitores,
direitinho,
a estória, tão singela,
do prato azul- pombinho.


In "POEMAS DOS BECOS DE GOIÁS  E ESTÓRIAS MAIS" de CORA CORALINA
Global Editora.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Maya e Gaia *

No espaço  azul do céu
As nuvens se desfazem
Em flocos de algodão
A  lua, lá no alto
faz poses de princesa...
A  carruagem do deus Tempo
desliza pelo deserto do  Nada
E eu, Maya, vejo o mundo
com olhos de Ilusão...
Ovelhas  nas pastagens
em doida correria
E os números giram em pontos
de interrogação.
Explodem em luzes tudo o que
se quer ou pode.
Entreatos, entretanto,
homens exercem seus poderes podres
em campos que fumegam bombas,
suas loucas verdades...
descabeladas dores.
Caem do espaço
pequeninos flocos
que vão cobrindo de branco os vales
como cetim macio...
Além do além do reino do deus Tempo,
dançando em véus,
Eu, Gaia, vou tecendo os coloridos modos
de uma Aurora.
Vibram energias pontuais da Todo,
a Humanidade sente a alma
universal do Tempo
correndo célere para algum lugar.
No horizonte já vai surgindo o sol
que em luz de Vida
vem iluminar os véus que envolvem
o meu corpo
E Eu, Maya (Gaia),
mais uma vez estou feliz.

Guaraciaba Perides (2013)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Fosse assim ...

Fosse gema rara
Jóia de valor
Fosse estrela e brilho
neste céu azul.
Fosse assim o nosso amor...
Fosse olho e riso
Fosse toque e brisa
Fosse beijo e flor
fosse o mais bonito,
de repente, o nosso amor!
Nada de saudade
nada de amargura
Sonho realizado
mundo de ternura,
só presença e paz...
Fosse assim o nosso amor



Uma música bem romântica para colorir um poema de amor- Na barra do seu vestido.

Guaraciaba  Perides  (2003)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Baile de Máscaras (carnaval ancestral) *

Cetim negro sob franja em prata
cintilam lantejoulas,purpurinas,
máscara dourada sobre a face
esconde uma risada cristalina...Colombina.

Olhos serenos como lagos claros
doce ternura de paixão contida
Sofrido peito que se sabe amante
anseio louco que consome a vida, Pierrot.

Surge o Dominó, o Arlequim da festa
e o palco se ilumina!
Galantes meneios em suaves danças
alegram o coração de Colombina...

Cruzam-se olharea sob ocultas faces
espreitam sem querer, seus movimentos
enquanto sonham seus amores loucos,
enredam-se em beijos, Arlequim e Colombina...

Num canto do salão, longe da festa,
sofre um coração que se alucina,
dilacerado o peito nessa dor insana,
calado e inquieto o ciumento Pierrot.

Surge uma lágrima em seu olho claro,
num instante brilha como estrela pura,
enquanto um riso meigo lhe ilumina o rosto
e esconde de todos seu imenso amor...

Lá fora, a fulgurante  lua
transforma em prata líquida o oceano
e a paz da natureza se revela,
longe da vida e do sentido humano.

Guaraciaba Perides (2001)

O arquétipo do triângulo amoroso  imortalizado nos
carnavais antigos por, Colombina, Pierrot e Arlequim...

Para completar esta idéia um vídeo com esta linda canção.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Daquilo que foi vida.*.. .(Senhorinha)

Um vestido de renda
Um par de brincos
Um retrato em tom sépia
Um par de luvas brancas.
Um jornal antigo,
Um leque avariado,
um espartilho.
Um prato de louça
lavrado em sua beira de ouro,
um copo de prata.
Uma mecha de cabelo
da raínha em bebê,
um vestido de noiva,
um rosário de contas,
um breviário de couro.
Um lenço bordado,
um colar de pérolas
e uma boneca de papel machê.
Para contar a história
um relógio de cordas
que badalam horas...
"Parece que foi ontem"
as tardes modorrentas
que à luz do tempo
corriam céleres para um outro tempo
onde iriam expor
em seus cristais brilhantes,
restos de um passado
em pedaços escassos,
daquilo que foi vida...
No testemunho mudo
de um santo barroco,
daquilo que foi muito e
de que restou tão pouco.

Guaraciaba Perides (2012)

*Quando eu era criança, meus pais me levavam com frequência ao museu do Ipiranga,aqui em São Paulo.Eu gostava muito da sala onde eram apresentados objetos do cotidiano da família imperial:quadros, louças, cristais, roupas ,objetos variados e inclusive mechas de cabelos dos
príncipea e princesas.Mesmo criança era algo que parecia belo mas melancólico pois imaginava o
que havia ali de vida passada.
Para completar coloquei um vídeo com a música chamada "Senhorinha" que me pareceu apropriada
à época citada.